Cultura do café encontrou na agricultura familiar o ambiente propício para o cultivo

Se chega uma visita em casa o primeiro convite é tomar aquele cafezinho, não é mesmo? Vai começar uma reunião de trabalho? Café. Precisa se manter acordado para os estudos? Está com saudade de um amigo e precisa de uma justificativa para um encontro? Anseia por uma conversa para resolver um mal entendido e não sabe a alternativa para chamar certa pessoa, qual a melhor alternativa? Café, no verão ou no inverno, café.

 

No trabalho ou no aconchego do lar, parece que boa parte da nossa rotina social está atrelada a uma xícara de café e dois dedos de prosa, não é mesmo?!  Tamanha representatividade fez com que este sábado, 14 de abril, se tornasse conhecido como o Dia Internacional do Café e, ainda, há outras datas no calendário dedicadas ao produto, 24 de maio e 1º de outubro. Tamanha é a paixão mundial pela bebida que consumida em moderação traz benefícios para a saúde.

 

Se estudarmos a nossa história da entrada desses grãos no Brasil, a partir do ano de 1727, por exemplo, é possível entender boa parte da trajetória socioeconômica nacional (escravatura, imigração, economia, cultura, política, etc). E, se estendermos um pouco mais para a contemporaneidade é possível entender a influência desses grãos na nossa balança comercial, seja através da atuação de grandes e médios produtores ou dos agricultores familiares.

 

Em Mato Grosso do Sul, inclusive, o município de Ivinhema é conhecido como a capital do café, no Estado, por contar com 300 hectares para o cultivo dos grãos, cerca de 80 agricultores familiares envolvidos no cultivo e uma colheita prevista de 270 mil quilos na safra de 2018.

 

Por ter em suas raízes à colonização paulista, povo com forte ligação na cultura do café, a cidade de Ivinhema conta com agricultores familiares esforçados no cultivo e que mostra a paixão por essa atividade através da beleza de suas lavouras e a qualidade dos grãos como o casal Oribes e Nilza Maria Branco.

 

 “Vim para Mato Grosso do Sul ainda pequeno, com oito anos de idade, em 1971. Minha família morava em São José do Rio Preto, meu pai trabalhava como diarista em fazenda, era empregado”, lembra o agricultor.

 

Oribes conta que dos três irmãos apenas ele escolheu o café como profissão. “A atividade do café é um serviço de família, fui criado no meio dos cafezais, mas eu sempre fui o que mais gostei de mexer com isso”, afirma.

 

Foto: Divulgação

Com 8 alqueires de área, a lavoura é constituída por café do tipo arábica. “Há dois tipos de grãos, o café arábica e o conilon, sendo que o primeiro é mais aceito para o consumo e que melhor se adapta ao clima de Ivinhema. O conilon é um café muito forte e, geralmente, você tem que misturar com o arábica porque sozinho ele amarga”, explica.

 

No mundo cafeeiro, o grão arábica é definido como o nobre da família, embora, todos tenham seu valor produtivo e econômico. Contudo, sabe-se que a bebida a partir do arábica é considerado nobre por sua complexidade de aroma e sabor (doçura e acidez). Os cafés “gourmet” só podem ser extraídos por meio dessas colheitas.

 

Investimentos e produção

 

Com auxílio na elaboração de projetos dentro do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e assistência técnica da Agraer, o sítio da família Branco tem demonstrado boa colheita ao longo dos anos. “Fizemos um financiamento de R$ 77 mil para compra de um secador e, por conta própria, estamos construindo um barracão ao lado para guardar o trator, as ferramentas. Com o acompanhamento da Agraer no projeto, e sabendo que a gente tem 10 anos para pagar não dá medo de fazer o financiamento”, afirma Oribes em tom descontraído.

 

“Do fundo do coração, dou nota dez para o atendimento da Agraer. Os técnicos estão sempre na propriedade, orientando sobre o combate de pragas e doenças, manejo do solo. A cultura do café não traz tanto dinheiro como no passado, mas ela traz benefícios. Se o preço de mercado está muito baixo você pode segurar um pouco as sacas, sem contar, que você tem um tempo maior para colher do que outros alimentos que estragam rápido. O café aguenta um ou dois anos bem armazenado”, informa o produtor.

 

Agricultor familiar Oribes com os técnicos da Agraer 

Com o secador instalado, Oribes já consegue entregar os grãos “beneficiados” e não mais in coco, como ele define. “Você colhe, seca e beneficia. Agrega valor ao grão. Antes a gente só vendia a coco, digamos assim, porque é com casca e tudo. Quando você entrega limpinho é diferente. A venda é mais certa e o valor pode subir de 15% a 20%”, garante.

 

Só nesta safra de 2018, Oribes calcula que a produção dele chegue a 500 sacas de café. Pensando que cada saca contém sempre 60 quilos, são nada mais nada menos que 30 mil quilos prontos para comercialização. “Não tenho outra fonte de renda. Então, a gente tem que calcular certo os custos e a renda pensando que é uma safra no ano. Só que a gente gosta do que faz e planejando bem tem como seguir. Eu sempre falo que para eu trocar de atividade é muito difícil”.

 

E o café do sítio do senhor Oribes Branco tem destinação certa. “A gente tira só um pouquinho para fazer o próprio café que, aliás, é feito com muito capricho. Mas, quase tudo é vendido mesmo. A gente manda para Itaporã, Dourados, Fátima do Sul, Ivinhema e Glória de Dourados”.

 

Um cuidado que o casal tem é com o trabalho de rebrota das plantas. “Em 2017, a colheita foi de 250 sacas. A gente costuma dizer que o café é bianual, uma safra é boa e no outro nem tanto. É que quando o pé de café tem uma boa produção em um ano, no outro ele, ainda, não se recuperou totalmente. Aqui é feito o esqueletamento, onde se corta as galhas mais judiadas, para que rebrote e venha uma nova, mais bonita e carregada de grão, na próxima colheita”, justifica.

 

Nesse contexto de cultivo é a saúde dos cafezais é sempre observada. “Recomendamos a adubação, calagem, controle de pragas e doenças, renovação de pés de café para que a cada colheita se tenha novas plantas que forneçam bons grãos e em quantidades desejadas. A cultura do café é perene, um pé de café pode ter até 20 anos de produção”, conta uma das técnicas da Agraer de Ivinhema, Teonília.

 

Seja pelo clima e solo propício, o amor dos agricultores familiares pela atividade ou a assistência técnica da Agraer, uma coisa é certa: o cultivo de café no município de Ivinhema tem apresentado bons resultados e promete muitos anos de prosperidade. O que a população dos centros urbanos faz gosto, visto que a bebida é a segunda mais consumida no mundo, perdendo apenas para a água.

 

No ranking de produção e consumo, o Brasil está entre os primeiros. Nove em cada dez brasileiros tomam ao menos uma xícara de café por dia. De acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), a produção nacional de 2018 está estimada entre 54,44 a 58,51 milhões de sacas de 60 kg. O que representa um aumento de 21,1% a 30,1% na comparação ao ano de 2017, que atingiu 44,97 milhões de sacas. Os dados são do primeiro levantamento feito pela própria Companhia.

 

Foto: Divulgação

E do que depender do hábito das pessoas de tomar cafezinho, a torcida por boa safra é sempre a favor. Seja expresso, puro, pingado ou gourmetizado, o café está arraigado na cultura mundial e, há anos, alguns bares e cafés, em especial da Europa, incentivam até mesmo a solidariedade através do chamado “Café Suspenso”. A ideia é consiste em comprar um café pra si e deixar outro pago para quem necessita ou apenas para outra pessoa que espera na fila.

 

Tomar um cafezinho

 

O hábito de apreciar a bebida se popularizou em caráter doméstico ou em recintos coletivos por volta do ano de 1450. Uma teoria aponta que o café era muito apreciado entre os filósofos que, ao toma-lo, permaneciam acordados para a prática de suas atividades. Anos depois, a Turquia foi a responsável em difundir mais amplamente o “hábito do café”, transformando-o em ritual de sociabilidade.

 

Foto: Divulgação

O país foi palco do primeiro café do primeiro café do mundo – o Kiva Han, por volta de 1475. Desde então, tomar café passou a ser um “rito” que se propagou mundo afora. Em 1574, os cafés do Cairo e Meca eram locais que também ganharam fama. Depois, veio, também, os famosos cafés da França muito retratados em filmes e livros. E, em São Paulo, há cafés para todos os gostos e bolsos, do famoso pingado do Mercadão até os gourmetizados em luxuosos estabelecimentos em bairros nobres da cidade.

 

E quem passar pela região do Teatro Municipal de São Paulo, pode ver o café retrato até mesmo nos antigos postes de iluminação instalados por volta de 1927. Alguns com desenhos em relevo de flores e minúsculas folhas de café que foram trabalhados nos postes de ferro. Uma forma de retratar a importância econômica desses grãos para o País na época. Mais uma prova de que seja nas ruas ou em casa, o café de uma forma ou de outra se faz presente em nosso cotidiano.

 

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